Sen to Chihiro No Kamikakushi no que sou.
Me peguei encucada em iniciar um formato novo. Queria falar de algumas coisas que gosto muito e recentemente vim tendo um papo super legal com uma amiga sobre essas coisas. Não existe pretensão aqui em construir qualquer espécie de crítica cinematográfica da obra. E sim reproduzir reflexões a respeito de certas temáticas, bem como expressar minha experiencia pessoal com algumas anedotas que trouxeram ela pra mim.
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| Chihiro by RodrigoICO ©2015-2019 RodrigoICO |
Pra quem não conhece esse aqui que é meu filme favorito e de longe uma das coisas que mais impactaram minha vida:
Sen to Chihiro no Kamikakushi (no Brasil: "A Viagem de Chihiro") é um filme de animação nipônico dirigido por Hayao Miyazaki e realizado pelo Studio Ghibli. A estória acompanha uma garota chamada Chihiro e sua busca por sobrevivência num mundo mágico em que foi absorvida, após adentrar um misterioso parque temático e ter seus pais transformados em porcos.
Sen to Chihiro no Kamikakushi (no Brasil: "A Viagem de Chihiro") é um filme de animação nipônico dirigido por Hayao Miyazaki e realizado pelo Studio Ghibli. A estória acompanha uma garota chamada Chihiro e sua busca por sobrevivência num mundo mágico em que foi absorvida, após adentrar um misterioso parque temático e ter seus pais transformados em porcos.
Imagine uma criança pequetucha, que mal sabe ler. Super acostumada a todas as estruturas formulaicas do cinema hollywoodiano. Ao maniqueísmo que se revela de maneira categórica nas personalidades vilanescas dos filmes da Disney. Na intensidade enervante dos conflitos que se sucedem ininterruptamente em suas narrativas. E imagine essa criança se deparando com um filme que é a completa antítese de todas essas características. Deixando-se mergulhar num mundo que não tem pressa pra lhe dizer quais são seus mistérios. Que não tem qualquer comprometimento em lhe entregar um conflito linear na busca por um objetivo, uma realização, uma conquista factível de mais um protagonista.
É, meu amigo, essa era eu nas redondezas de 2003/2004. Eu era uma menina completamente apaixonada por animações, coisa natural de qualquer criança que cresceu nos anos 90 abarrotada de desenhos animados nas manhãs da TV. Privilegiada financeiramente na primeira infância, minha família alugava constantemente filmes para os fins de semana. Em geral eu e minha irmã sempre escolhíamos os que mais nos apeteciam. Adorava vagar aleatoriamente pela locadora e sentir aquele cheiro plástico de VHS das capas nas prateleiras.
Eis que numa tarde dessas, que seria muito mentirosa se pudesse lhe dizer que me lembro bem, deparei-me com um filminho que tinha visto um tempo atrás. O VHS de "A Viagem de Chihiro" se destacava bem com aquela coloração lindíssima de céu azul, mas o que mais me levou a escolhe-lo naquela ocasião foi sem dúvida a propaganda incessante que abarrotava a TV vez ou outra: uma pequena cena com Chihiro gritando para "Haku". Que criou um acalorado debate infantil entre eu e minha irmã: Ela insistia que Haku era o garoto de cabelos verde-escuros. E eu, que definitivamente se tratava do Dragão. (Imagine você como a descoberta da resposta pra esse conflito foi coincidentemente hilária).
Eis que numa tarde dessas, que seria muito mentirosa se pudesse lhe dizer que me lembro bem, deparei-me com um filminho que tinha visto um tempo atrás. O VHS de "A Viagem de Chihiro" se destacava bem com aquela coloração lindíssima de céu azul, mas o que mais me levou a escolhe-lo naquela ocasião foi sem dúvida a propaganda incessante que abarrotava a TV vez ou outra: uma pequena cena com Chihiro gritando para "Haku". Que criou um acalorado debate infantil entre eu e minha irmã: Ela insistia que Haku era o garoto de cabelos verde-escuros. E eu, que definitivamente se tratava do Dragão. (Imagine você como a descoberta da resposta pra esse conflito foi coincidentemente hilária).
Não me lembro do dia ou da ocasião em que retirei o filme da prateleira, mas lembro como hoje do cheiro de plástico, da sensação de tocar sua capa vazia, olhar suas ilustrações. De como os desenhos ali dispostos me traziam um sentimento engraçado de carinho, como se estivessem exalando um aroma amigo que na lembrança ainda hoje consigo sentir. Não sei se era dia ou noite. Se estava com meu pai ou apenas minha irmã. Nem sei que outros filmes levamos ou quanto tempo demoramos para chegar em casa. Não lembro nenhum desses detalhes. Mas lembro-me bem da sensação engraçada. Lembro de retirá-lo da prateleira, leva-lo ao balcão, e só.
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| Spirited Away - The Tunnel by Shmemcat. ©2012-2019 shmemcat |
Assisti aquele filme assiduamente desde a primeira cena. Não estava buscando a beleza artística da delicada animação tradicional, nem a fugacidade dos tons pasteis desbotados do primeiro segmento, ou mesmo a sutileza artística da belíssima musicalidade que hoje revisito com tanta frequência. Era uma criança e como tal não buscava absolutamente nada em especial. Queria me divertir e ver uma história divertida, e provavelmente só. Não havia qualquer pretensão de busca de significado ou da própria arte, ou de todas as características que hoje conscientemente encontro. Mas mesmo que não buscasse por ela, eu a senti.
Expor-me a uma narrativa tão gritante e desconfortavelmente diferente de tudo aquilo que eu estava acostumada operou sobre mim um profundo sentimento de novidade. Eu definitivamente sabia que nunca tinha sentido aquilo vendo quaisquer outras coisas que eu adorava. Não era como se eu pudesse dizer isso em palavras, mas o mistério que se operou em mim ao assistir aos conflitos e ao crescimento de Chihiro podia pulsar em minhas veias. Tudo ali era estranho, ao ponto de que minha cabeça de narrativas convencionais não conseguia decifrar aquele mistério. Como podia conceber em mim a ideia de uma vilã malévola que sente um amor verdadeiramente terno por seu filho? Como podia odiar Yubaba, quando sua irmã gêmea era perfeitamente como ela e carregava uma atmosfera absolutamente maravilhosa de acolhimento e segurança? Eu devia temer a tenebrosa presença de Sem-Rosto, quando ele ao encontrar pra si um acolhimento era tão amável e prestativo? Onde estava o mal que eu precisava detestar? A vilanice categórica do antagonista para dar propósito ao mocinho? O que diabos era aquilo que eu vi?
Expor-me a uma narrativa tão gritante e desconfortavelmente diferente de tudo aquilo que eu estava acostumada operou sobre mim um profundo sentimento de novidade. Eu definitivamente sabia que nunca tinha sentido aquilo vendo quaisquer outras coisas que eu adorava. Não era como se eu pudesse dizer isso em palavras, mas o mistério que se operou em mim ao assistir aos conflitos e ao crescimento de Chihiro podia pulsar em minhas veias. Tudo ali era estranho, ao ponto de que minha cabeça de narrativas convencionais não conseguia decifrar aquele mistério. Como podia conceber em mim a ideia de uma vilã malévola que sente um amor verdadeiramente terno por seu filho? Como podia odiar Yubaba, quando sua irmã gêmea era perfeitamente como ela e carregava uma atmosfera absolutamente maravilhosa de acolhimento e segurança? Eu devia temer a tenebrosa presença de Sem-Rosto, quando ele ao encontrar pra si um acolhimento era tão amável e prestativo? Onde estava o mal que eu precisava detestar? A vilanice categórica do antagonista para dar propósito ao mocinho? O que diabos era aquilo que eu vi?
Não é como se na minha cabeça infantil se operassem por escrito todas essas inúmeras perguntas pertinentes. Mas a dúvida e o incomodo são sentimentos. Você os sente antes que os possa definir, compreender, formular as perguntas e dispo-las pelo papel. E exatamente assim foi comigo. Os minutos finais do filme se acabaram, foram-se, e eu ainda não conseguia absorver o que vi. Como podia acabar ali? Quando é que lançariam "A Viagem de Chihiro 2", que iria arrecadar uma montanha de dinheiro dos pais de crianças excitadas que ocupariam as salas de cinema para experimentar mais um pouco de tudo aquilo que já viram?
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| Spirited Away... by Kris-Kamikakushi ©2012-2019 Kris-Kamikakushi |
Passaram-se muitos anos até eu entender que nunca haveria "A Viagem de Chihiro 2". Que não precisava de "A Viagem de Chihiro 2". Que aquela estória estava encerrada da mesma maneira que se encerram os pequenos capítulos da nossa infância. Aqueles pequenos desafios que se amontoam e nos fazem crescer. Eu já estava mais velha quando tive meu segundo contato com Chihiro e pude questionar conscientemente o seu tratamento particular para todas aquelas convenções para as quais fui treinada a esperar. Durante o período de transição do VHS para o DVD nas locadoras da região (que por minha cidade deve ter demorado pelo menos 3 anos a mais para acontecer que no resto do mundo) eu comprei minha própria copia de Chihiro. Assisti ao filme trezentas bilhões de vezes e fiquei encantada em constatar que ele realmente me emocionava de uma maneira muito particular. Chihiro era meu exemplo maior de força e coragem, ao enfrentar tudo aquilo que há de mais apavorante em seu próprio mundo e superar medo após medo. Ela era sensível como eu me sentia e era capaz de superar tudo aquilo e crescer. E sua presença de poder e vontade era tamanha que assisti-la era como ouvir as anedotas de uma amiga muito próxima.
Junto a isso tudo também conheci a maravilhosa canção da Kimura Yumi, Itsumo Nando Demo, que constava no encerramento do filme e também foi responsável por moldar meu gosto por poesia que hoje é tão intrinsecamente relacionado a quem eu sou.
Perdi esse VHS na mudança de cidade quando abandonei a casa da minha mãe. Mas nunca vou esquecer esses detalhes. O cheiro de velho. A rugosidade do plástico desgastado pelo tempo. A maneira como a lombada do VHS se arredondava feito dobra de tapete. O papelzinho com a tradução de Itsumo Nando Demo que constava na legenda, copiado na minha caligrafia horrorosa, guardado dentro da capa como um tesouro indescritível que de tanto ler hoje guardo na memória frase-a-frase.
Só descobri do que se tratava Oscar, Ghibli e do renome do próprio Hayao Miyazaki alguns anos depois de tudo isso. Desde então consumi montanhas e montanhas de outros filmes desse que se tornou meu diretor favorito. Embarquei em estórias fantásticas, cheias de uma fantasia e ,curiosamente, de uma verdade indescritível. Estudei, li, e me apaixonei por milhares de segmentos da arte e do próprio Cinema. Mas nunca vou esquecer essas impressões infantis dessa que é a obra com mais significado pra mim.
"Janela de um recomeço, silêncio, nova luz da aurora
Deixe que meu corpo vazio e silente seja preenchido e nasça outra vez,
Não é preciso procurar lá fora nem velejar através do mar
Porque brilha aqui dentro de mim, está bem aqui dentro de mim
Encontrei uma luz que está sempre comigo."





Lindo texto, lindo blog, lindas imagens e linda escritora.
ResponderExcluirViagem de Chiriro é um daqueles filmes que passam por a gente. Mesmo que não vire um fã, de alguma forma ele passa por você.