Ensaio sobre a Cegueira - Leituras 2019 #1
Percebi nos últimos tempos que me tornei uma leitora demasiadamente limitada, de pouquíssimo conteúdo atual e muita coisa que se perdeu há muito na minha memória horrorosa. Visto isso estabeleci pra mim uma meta de ler 12 livros até o fim desse ano, pra tentar instigar novamente em mim aquilo que tive há tanto tempo atrás, e redescobrir meu amor por livros, que embora não se tenha esvaído com o tempo, deixou-se esconder pelo cotidiano turbulento.
Dito isso, a minha primeira leitura do ano (na realidade é uma releitura de um livro que li há tanto tempo que pouco me lembrava. Tão pouco, quase como se não o tivesse lido, embora uma ou outra passagem se fizesse mais clara na lembrança, outras passagens muito fortes eu acabei por esquecer completamente). Trata-se de Ensaio sobre a Cegueira, do autor português José Saramago.
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
Ensaio sobre a cegueira é um livro com uma premissa bastante objetiva: misteriosamente surgem casos de uma poderosa e incontrolável epidemia de cegueira. Não uma cegueira comum, na qual se diagnostica através de exames oftálmicos e afins, mas uma cegueira que produz uma continua imagem branca e opaca. Como se, conforme a descrição do próprio Ensaio, mergulhasse de cabeça num infindável mar de leite.
A primeira vista eu me peguei pensando simplesmente numa tipica história de futuro distópico (sem razão, na realidade) pois embora a frequente ocorrência dos futuros distópicos tenha se tornado até um pouco batida na atualidade (sobretudo a presente na literatura mais teen), essas distopias se configuram como a estrutura da sociedade pós catástrofe, e não reproduzem o evento da catástrofe em si. Confesso que meu único contato com um livro de catástrofe em si se deve ao I Am the Legend, de Richard Matheson, que me prendeu bastante mas sempre rola o lance de não se tratar muito de uma temática que me apeteça profundamente. Aqui, porém, eu fiquei absolutamente eletrizada com o desenrolar animal da narrativa. Pois muito além de um livro sobre um grande evento catastrófico, Ensaio sobre a Cegueira discorre de maneira poderosa sobre a essência da moralidade e aquilo que nos difere dos outros animais. A sociedade local em meio a crise torna-se profundamente animalesca, torpe e abjeta. A ruptura do ser humano moderno e suas estruturas corporativas ante a queda de seu sentido fisiológico mais usual é gradativa, mas uma vez que ocorre, é brutal. Feito uma horda de zumbis, cegos errantes tateiam pelos cantos e arrastam-se pela lama, pelos dejetos e a podridão que despejam nas caóticas vielas, pelos corpos putrefatos e dilacerados dos sujeitos mais fracos. Atropelam-se e batalham por alimento feito feras descontroladas, que a diferir dos amigos zumbis, não tiveram sua consciência entorpecida por um vírus terrível, e sim tiveram sua condição humana, moral e empática minada por sua incapacidade de ver, afinal, num mundo onde o inferno são os outros, a cegueira converte-os em parte indissociável de nós mesmos, personificando o inferno em nós. A indissociabilidade do outro perante o um é onipresente na narrativa, que faz questão de não dar nome a nenhum de seus personagens, mantendo sempre uma alcunha descritiva única e objetiva: temos a rapariga dos óculos escuros, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, a mulher do médico, o velho da venda preta, etc. Essa objetividade descritiva permite-nos conhecer quem são pelo que de fato são, em detrimento da indissociabilidade dos muitos cegos errantes, temos a visão de cada um por suas ações que transpõe qualquer cegueira e nos permite sentir na pele seu sofrimento e sua impotência.
Ainda sobre a estrutura textual, a alcunha "Ensaio" cai muito bem. A narrativa é crua e profundamente ponderadora. Feito a análise ponderada de eventos que se dão num experimento laboratorial, ela descreve e discute numa verdadeira dialética do comportamento humano. Os diálogos são, assim, parte do corpo dessa dialética, e são atirados sem aviso prévio no texto, que não comporta o uso de travessões. A estrutura é de início um pouco incômoda, mas a adaptação se dá rapidamente e logo o texto se torna muito fluido e fácil de acompanhar. Essa construção textual acaba por se tornar uma característica fundamental pra identidade questionadora da condição humana presente em toda a narrativa.
A primeira vista eu me peguei pensando simplesmente numa tipica história de futuro distópico (sem razão, na realidade) pois embora a frequente ocorrência dos futuros distópicos tenha se tornado até um pouco batida na atualidade (sobretudo a presente na literatura mais teen), essas distopias se configuram como a estrutura da sociedade pós catástrofe, e não reproduzem o evento da catástrofe em si. Confesso que meu único contato com um livro de catástrofe em si se deve ao I Am the Legend, de Richard Matheson, que me prendeu bastante mas sempre rola o lance de não se tratar muito de uma temática que me apeteça profundamente. Aqui, porém, eu fiquei absolutamente eletrizada com o desenrolar animal da narrativa. Pois muito além de um livro sobre um grande evento catastrófico, Ensaio sobre a Cegueira discorre de maneira poderosa sobre a essência da moralidade e aquilo que nos difere dos outros animais. A sociedade local em meio a crise torna-se profundamente animalesca, torpe e abjeta. A ruptura do ser humano moderno e suas estruturas corporativas ante a queda de seu sentido fisiológico mais usual é gradativa, mas uma vez que ocorre, é brutal. Feito uma horda de zumbis, cegos errantes tateiam pelos cantos e arrastam-se pela lama, pelos dejetos e a podridão que despejam nas caóticas vielas, pelos corpos putrefatos e dilacerados dos sujeitos mais fracos. Atropelam-se e batalham por alimento feito feras descontroladas, que a diferir dos amigos zumbis, não tiveram sua consciência entorpecida por um vírus terrível, e sim tiveram sua condição humana, moral e empática minada por sua incapacidade de ver, afinal, num mundo onde o inferno são os outros, a cegueira converte-os em parte indissociável de nós mesmos, personificando o inferno em nós. A indissociabilidade do outro perante o um é onipresente na narrativa, que faz questão de não dar nome a nenhum de seus personagens, mantendo sempre uma alcunha descritiva única e objetiva: temos a rapariga dos óculos escuros, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, a mulher do médico, o velho da venda preta, etc. Essa objetividade descritiva permite-nos conhecer quem são pelo que de fato são, em detrimento da indissociabilidade dos muitos cegos errantes, temos a visão de cada um por suas ações que transpõe qualquer cegueira e nos permite sentir na pele seu sofrimento e sua impotência.
"Só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são."
Ainda sobre a estrutura textual, a alcunha "Ensaio" cai muito bem. A narrativa é crua e profundamente ponderadora. Feito a análise ponderada de eventos que se dão num experimento laboratorial, ela descreve e discute numa verdadeira dialética do comportamento humano. Os diálogos são, assim, parte do corpo dessa dialética, e são atirados sem aviso prévio no texto, que não comporta o uso de travessões. A estrutura é de início um pouco incômoda, mas a adaptação se dá rapidamente e logo o texto se torna muito fluido e fácil de acompanhar. Essa construção textual acaba por se tornar uma característica fundamental pra identidade questionadora da condição humana presente em toda a narrativa.
"Pareceu ao médico que ouvia chorar, um som quase inaudível, como só pode ser o de umas lágrimas que vão deslizando lentamente até às comissuras da boca e aí se somem para recomeçarem o ciclo eterno das inexplicáveis dores e alegrias humanas."
Outra coisa muito legal é ter como protagonista uma mulher. Que, em ruptura de sua descrição como "a mulher do médico" tem o papel mais fundamental em toda a trama. Sua força e sua fragilidade humana são absolutamente fundamentais e nos ensinam de maneira preponderante a responsabilidade de se ter olhos quando os outros os perderam.
nós já somos, todos, cegos.

Muito bacana.
ResponderExcluirEstá entre os autores que me sinto obrigado a conhecer. Interessante pensar no poder educador da arte em certos aspectos, uma vez que possui a potencia de chamar atenção para questões tão profundar, de maneira tão sintática como só o artista consegue.
No caso de Saramago esse poder de dizer sem necessariamente ter de escrever é perceptível, uma vez que a própria estrutura do texto e a abordagem dos personagens parece dizer bastante sobre a mensagem e o tom que o autor busca apresentar.
Enfim, curioso por esse livro!