Tão Cansada de Ser

Na urgência da noite, a pétala
Que de tua delicada silhueta desprendeu-se
Do lírio prateado, pálida mãe, vândala
E pela fresta da janela adentrou resfolegante
Um facho de luz vacilante, hesitante luz, luz trêmula
Feito minhas mãos sobre o papel, sobre o poema
Feito o lápis sobre a linha, sobre a dor

Observo sua batalha contra as trevas, tão infrutífera e fugaz
Tal qual meu próprio conflito de palavras e lembranças
Que num momento está e então deixa de ser
Feito verso que logo se rasura, se anula, se reprime
Seja pela efemeridade de sua beleza, que instante brota e instante murcha
Ou pela jovialidade que com tempo morre
E a ponta do lápis se parte

Quisera eu mesma te-la partido, num só instante
Arrancá-la-ia pela raiz num golpe único e cortante
Para que não fosse mãe de mais palavras que machucam
Para que não fosse mais palco de lutas sem perdão.
Todavia quisesse dar fim a toda essa infinidade, ver morrer
Findar é verbo infinitivo e definitivo, que hora quero ser sujeito
Hora me sujeito esquecer.

Céus, leva-me em silêncio e deixa-me ir!
Que na urgência da noite já não quero repousar.
Embriaga-me a poesia relutante e indefinida
E em tua pétala prateada me enterneça de luar.
Luar na cor de luz
Luar na luz em flor

Comentários

  1. Adorei. Poderia passar dias tentando decifrar as camadas que tem nessas linhas

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