Na Nau Despovoada

Deito-me na nau despovoada,
O mar revolto paira sobre mim;
O incomensurável azul
Sem fim;
Sem fim.

E não há ninguém no mar,
se o mar sou eu.
Ninguém ao mar
Se amar não sou
Não sou ninguém;

Dizer-se-ia: "Foi assim"
Mas já nem sei se fui, se fomos;
S'investigo tanto esse passado sem fim
S'enfim investigo,
A dor;

A dor de recordar-me de tal forma
E haver motivo pra viver, e viver
Viver sem motivo, sem norma
E vir ver; feito nos vimos
Até nos des-conhecer.

Na nau despovoada deito-me
Me sinto só, se sei sentir;
Se não sei, me sento; sento-me
Sobre solidão e mar
E a solidão me amar

E não há ninguém aqui; ninguém;
Mandei-vos partir, deixei-vos;
Um em cada ancoradouro, se bem;
Um em cada canto desse mar;
Feito estrelas.

Lembro-me teus nomes de convés,
Tuas silhuetas sob o sol, sob o vento
Na proa restam marcas de seus pés;
Na nau; se nau sou
Se não sou.

Se não sou nau, sou mar agitado;
As ondas saltam sobre os olhos
Gotas salinas, do passado.
Que por passado
deixou-se ir;

Na nau despovoada desencontrei-me
Flutuante no mar do despropósito
à deriva
Me sinto só;
Só sinto.





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